2/7/93
De um lar miserável para a geladeira do IML
Os meninos de rua são as maiores vítimas da miséria do país e se transformam em "monstros" ameaçadores
Maurício Rudner Huertas
São 20 milhões de crianças e adolescentes na mais absoluta pobreza que lutam pela sobrevivência nas ruas do país. Alguns pedem esmola, outros vendem chiclete, bugigangas e quinquilharias. Muitos tentam vencer a miséria partindo para o crime.
É estarrecedora a indiferença de parte (a maior parte, diga-se) da sociedade brasileira pelo drama dos meninos e meninas de rua e suas famílias desmoronadas. O problema tomou-se rotina. Casos que envolvem essas crianças merecem no máximo um registro nas editorias de polícia da grande imprensa.
Há - para confirmar a regra - exceções. Mas são poucas as pessoas que ainda não perderam a capacidade de indignar-se, combater e denunciar o trágico destino da infância deserdada das nossas esquinas.
Citem-se os exemplos do jornalista Gilberto Dimenstein, da Abrinq (Associação Brasileira da Indústria de Brinquedos), da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), da Pastoral do Menor e... Muito pouco é feito para solucionar este que ainda é tratado como um problema "menor".
Sistema
"A violência contra o menino de rua é a síntese da história política do Brasil. Impossível dissociar tal fenômeno do fato de que somos a última nação independente a sair da escravidão. Ou de que nossa elite continue acreditando, no íntimo, que o problema social é caso de polícia". Assim falou Dimenstein. Para a maioria das pessoas, entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
O jornalista não desiste. "Quando se descobre que, a cada dia, duas crianças são assassinadas e, pelo menos uma delas, por esquadrões da morte beneficiados pela impunidade, tem-se o retrato de como a sociedade decide quem manda. E quem deve obedecer. Quem deve ser protegido e quem deve ser marginalizado. Enfim, quem tem direitos e quem não tem direito a nada".
O medo desses "monstros" que nos ameaçam nos faróis é desculpa esfarrapada para a omissão social. Esquecemos que 5 milhões de çrianças até 7 anos são vítimas da desnutrição. Esquecemos que a criança é a ponta mais frágil do processo de brutalização política. Esquecemos de valorizar as denúncias como estas, de Gilberto Dimenstein. Afinal, ele é um jornalista - e dizem os manuais que jornalistas não devem escrever na primeira pessoa. Bobagem. Este problema atinge a todos nós, e devemos denunciá-lo.
Marcados
Quem se levanta contra a impunidade e tenta combater o massacre sistematizado das crianças tem logo sua iniciativa tachada pela sociedade: ingenuidade, utopia, politicagem, pieguismo. "Crianças" são apenas os filhos das famílias mais abastadas - o resto são "menores", "elementos", "meliantes" e, outra vez, "monstros". E, como tais, devem ser eliminados.
Marcados para morrer. Assim também estão os poucos que têm coragem para denunciar a série de desmandos e violências cometidas contra as crianças. Ou aqueles que apontam onde estão os verdadeiros monstros: na Polícia Militar, na Febem, em Brasília... E 1á se vai mais um para a lista, ao lado de nomes como o de Júlio Lancelotti, pároco da Igreja de São Miguel Arcanjo; ou o do deputado petista Hélio Bicudo.
Rechear a cabeça do leitor de estatísticas escabrosas as é fácil: morrem mil crianças por dia antes de completarem um ano; metade das crianças e adolescentes brasileiros vivem em famílias cuja renda mensal per capita é de meio salário mínimo; 80 milhões de brasileiros são deficientes ca1óricos, ou seja, comem menos que o organismo necessita. Isso em um país com 350 milhões de hectares cultiváveis (com apenas 14% produzindo).
Chicago Bulls
Como tantas outras crianças, os meninos e meninas de rua poderiam estar na escola, nadando no clube, jogand videogame em casa ou recebendo a mesada dos pais para comprar um tênis importado e um boné do time preferido da NBA. Não estão. Os menores carentes estão nas ruas pedindo esmola, cheirando cola, vendendo o próprio corpo ou roubando bolsas, carteiras e relógios.
Há quinze anos, na música de Chico Buarque e Francis Hime, o retrato dos "pivetes" era outro, mais inocente e menos cruel: No sinal fechado / Ele vende chicletes / Capricha na flanela / E se chama Pelé / Pinta na janela / Batalha algum trocado / Aponta um canivete.
Hoje os meninos não têm mais canivetes. Têm revólveres calibre 38. Têm escopetas. E atiram. Transformam-se de vítimas em criminosos. Deixam de causar pena e provocam medo e ódio. A brutalidade das ruas é a lição diária destes aprendizes de marginais. Todos acabam por se conscientizar que só os mais fortes (e espertos) sobrevivem.
A maioria das crianças sai de lares desfeitos, com pais desempregados e destruídos pelo alcoolismo. As meninas aprendem logo que possuem uma arma fatal: o corpo. E essa moeda é valiosa. Serve para trocar por comida, por esmalte (não para as unhas, mas para ser cheirado), por crack.
A vida nas ruas é um universo à parte. Formam-se "famílias", com "pai", "mãe" e "filhos'. Assim todos são orientados para o crime. Cada passo é planejado. É o bote no relógio. É a batida na carteira do velho. A ação é sempre rápida, e um receptador estará aguardando no local combinado.
Quando os meninos não estão roubando, estão planejando o que roubar. Sempre com a cola, o esmalte e o crack, que é para dar coragem e despistar a fome e o frio. Antes esses meninos tinham um território único: a praça da Sé. Hoje, não. Eles estão em todos os lugares, cada vez em maior número. Formam gangues e invadem as casas e o comércio.
A Folha VP foi invadida há quinze dias. Por um minúsculo espaço da janela, alguns meninos entraram para levar equipamentos eletrônicos. Rotina. Com uma rápida reflexão, chega-se a uma conclusão lógica mas sempre descartada. Se eles roubam, é porque alguém compra os produtos roubados. Mas quem fica marcado pela sociedade são os meninos. E assim ganham força os defensores de penas mais duras para os menores, em oposição ao frágil Estatuto da Criança e do Adolescente.
Em Sapopemba, a Escola Municipal de 1o Grau Deputada Ivete Vargas foi invadida duas vezes em dez dias. Uma gangue de menores entrou na escola, colocou fogo na cozinha e na sala dos professores e rasgou documentos. O grupo levou ainda máquinas de escrever e telefones.
Puro vandalismo. Arrancaram as torneiras das pias, arrebentaram portas, deixaram o gás ligado e esvaziaram os extintores de incêndio. A direção da escola pediu maior proteção policial. Sem resultado.
Enquanto isso, o governo prossegue na tentativa de reimplantar a "linha-dura". Desde a rebelião na FEBEM, em outubro do ano passado, o governador Fleury exige maior rigor no tratamento aos menores infratores. Substituiu o assistencialismo social da secretária Alda Marco Antonio pelo "prendo-e-arrebento" da "delegada" Rosmary Correa. Não consta que o problema tenha sido resolvido.
O que acontece no quadrilátero da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM), por exemplo, é segredo de Estado. A imprensa é mantida longe. Quem já entrou na instituição, como o padre Júlio Lancelloti, aponta abusos e irregularidades. O governo empurra com a barriga as acusações e engrossa o rol da impunidade, encabeçado pelo massacre do Carandiru.
Em outubro do ano passado, a corretora de telefones Sandra Regina dos Santos ganhou a manchete dos jornais. Esta moradora do Parque São Lucas ficou sensibilizada com uma foto publicada no "Jornal da Tarde": um garoto de 7 anos, morador da praça da Sé, estava chupando chupeta, fumando cigarro e cheirando esmalte.
"Comparei o menino aos meus dois filhos, que têm a mesma idade dele", disse Sandra, na época. "Quero adotar esse garoto". Nove meses depois, Sandra não quer mais falar no assunto. "Por favor, não insistam", respondeu à Folha VP. "Este assunto já está encerrado para mim".
Qual teria sido o motivo da desistência? "Foi uma pressão incrivel sobre a minha família; me esqueçam, por favor", esquivou-se. "Não foi fácil aguentar os telefonemas anônimos de pessoas me ameaçando e dizendo que eu era louca em defender um bandido". As "pressões" sobre Sandra acabaram. O menino continuou na rua. Vivo ou morto? Ninguém sabe. Mas o assunto não termina por aqui.